3.2.08

Atenção: a leitura dessa postagem, em específico, não é recomendada para quem está passando por crises de pânico.
Depressão: a eletroconvulsoterapia - ECT. Estou de volta, desta vez para falar de um assunto polêmico: a eletroconvulsoterapia, conhecida pela sigla ECT e, popularmente, como eletrochoque. Tive duas experiências com esse tratamento, sempre de forma voluntária e consciente. Antes de tudo, faço questão de dizer que, para realizar essa antiga e eficaz terapia, o paciente deve assinar um termo consentindo com a aplicação do eletrochoque. Ressalto, ainda, que o procedimento é completamente indolor, rápido e seguro. Apesar de tudo isso, confesso que é necessário ter coragem, muita coragem. Andrew Solomon, o autor do melhor livro sobre depressão disponível no mercado, denominado "O Demônio do Meio-Dia Uma Anatomia da Depressão", confessa que não teve essa coragem. Eu tive. Não foi nada fácil, mas deu resultado. Optei por realizar a primeira aplicação num momento em que eu estava no fundo do poço, sem qualquer esperança, com depressão grave, estado esse que perdurava há algum tempo, mesmo após passar por 5 psiquiatras, tomar 15 comprimidos ao dia (antidepressivos, estabilizadores de humor e ansiolíticos) e fazer terapia semanalmente. Na véspera da aplicação, tamanho era meu medo, que comecei a ter ataques de ansiedade e de pânico. Na primeira vez, cheguei ao hospital aos prantos, não saí do carro e voltei para casa. Minha esposa estava comigo. Na semana seguinte fui, chorei e concordei em realizá-lo com a condição de que meu médico ficaria ao meu lado o tempo todo. Alguns são contra a eletroconvulsoterapia em razão desse trauma psicológico: ninguém gosta de comparecer a um hospital psiquiátrico, muito menos sabendo que será submetido a um eletrochoque na cabeça e induzido a uma convunção, para nunca mais se esquecer disso. Todavia, se considerarmos o grau de sofrimento gerado por uma depressão grave, a coisa não fica tão difícil assim. Então, entrei no carro e fui lá, acompanhado de minha esposa. O procedimento é simples: você realiza exames médicos preliminares, agenda um horário, faz jejum de 12 horas, comparece ao hospital com o pedido médico, assina o termo de consentimento, passa por um cardiologista, por um dentista, é chamado para comparecer na sala onde as aplicações são feitas, deita-se na maca, recebe um relaxante muscular e, por fim, uma anestesia geral de curtíssima duração. Então, após cerca de um minuto, você acorda um pouco dopado. Tudo isso com a participação direta de uma equipe médica séria e profissional, formada por psiquiatras e anestesistas. Via de regra, no dia seguinte, você sente dores musculares (como se tivesse feito muito exercício físico), além de dor de cabeça e um pouco de dificuldade de se recordar de fatos bobos muito recentes (leve falta de memória imediata). Por exemplo, tive que me esforçar para lembrar em qual vaga do hospital meu carro estava estacionado. Importante é ressaltar que todos esses sintomas são passageiros. Os médicos costumam indicar uma série de aplicações diárias e seguidas. Todavia, no meu caso, tive sintomas inesperados. Após minha primeira aplicação a depressão desapareceu, mas eu fiquei atordoado por quase uma semana, tendo um pouco de paranóia, muita sensação de estranheza e vários ataques de pânico. Voltei a sentir os sintomas da minha primeira crise de ansiedade, ocorrida há anos atrás. Por conta disso, não dei continuidade ao tratamento. Todavia, passada essa complicada fase, fiquei muito bem por 3 meses: sem depressão, pânico e ansiedade. Então, a depressão começou a voltar aos poucos e novamente lá estava eu, no fundo do poço. Diante disso, por vontade própria, decidi fazer uma nova tentativa, principalmente porque meu médico ventilava a hipótese de que tais sintomas incomuns poderiam ter como origem o stress que precedeu a primeira aplicação: o que para mim fazia sentido. Então, na segunda tentativa, de tão calmo que eu estava, fui sozinho ao hospital: cheguei lá deprimido, mas muito sereno e sem qualquer ansiedade. Após a aplicação, voltei a ficar atordoado, a ter crises de ansiedade e ataques de pânico, também por quase uma semana. Entretanto, novamente, a depressão e os pensamentos suicidas haviam desaparecidos. No meu caso, em ambas tentativas, uma enorme ansiedade e medo generalizado substituíram a depressão. Foi complicado, mas isso não me impediu de tocar a vida, pois voltei a ter vontade de fazer as coisas. Lembro-me de ter comparecido ao trabalho e de ter feito esporte no mesmo dia da segunda aplicação. Afinal, após tantos episódios de ansiedade e pânico, tornei-me um mestre na arte de domar esses leões. Parei o tratamento de eletrochoque por aí, por achar que mudar a medicação, quando se está deprimido, é melhor do que viver uma semana na tênue linha que separa a sanidade da insanidade. Acreditem, sei como é ser louco, pois me recordo de todos os episódios do passado, alguns deles paranóicos. Ou seja, nunca perdi a consciência. Não desejo isso a ninguém. A loucura é desumana, avassaladora. É como ir ao inferno e voltar. No meu ponto de vista, é fundamental tomar remédios, tentar todos tratamentos disponíveis e desenvolver ferramentas de controle emocional, tanto internas como externas. Nesse particular, a terapia é muito útil, inclusive familiar, sempre com um acompanhamento de um psiquiatra. Lembrem-se: depressão, crises de ansiedade e ataques de pânico são doenças. Não há força de vontade que as cure. Por isso, jamais se culpe e procure um médico de sua confiança o mais rápido possível. Dica: o ECT, apesar de ser indolor, requer uma preparação psicológica. Sugiro visitar o local e conversar com pessoas que estão na sala de espera alguns dias antes de fazer a aplicação. Bom, vou ficando por aqui. Em breve falarei sobre minha experiência com outro tratamento para depressão que realizei: a Estimulação Magnética Transcraniana, conhecida pela sigla EMT ou EMTr. Prometo, ainda, um dia, publicar todas anotações que fiz quando estava com crises. Até mais! http://mentelouca.blogspot.com/